Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

Depois do Oriente Médio, chegamos à Índia...

Saímos do Líbano às pressas (mas não fugindo de bombas!), logo após pegarmos o visto para Índia, no dia 10 de setembro. Desde então, passamos pela Síria (Damasco e Palmyra) e pela Jordânia (Amman e Petra). Muitas coisas para ver e fazer -- sem considerar as incontáveis horas na estrada. Finalmente na Índia, já passamos por Delhi e Agra (Tal Mahal), e agora estamos em Orchha. Amanhã seguimos para outro lugar fascinante: Khajuharo. Lá veremos os templos do Kama Sutra... ho ho ho!

Estamos devendo detalhes de nossas últimas viagens, mas como a coisa aqui na Índia virou uma outra "viagem", vai levar um tempo... ;o/

Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

O retorno da "Paris do Oriente Médio"

Praça Nejmeh, no centro de Beirute: símbolo do novo estado de espírito da cidade e do país em plena recuperação após 15 anos de guerra civil.

Se Buenos Aires é a Paris da América do Sul -- como os argentinos gostam de afirmar -- eu ainda não sei. Mas que Beirute está recuperando o status de Paris do Oriente Médio, como era conhecida nos anos 1960, disso eu tenho quase certeza. Caminhar pelas ruas centrais da capital do Líbano é uma experiência européia. Se não fossem os esqueletos dos prédios cravados de bala, remanescentes da Guerra Civil do Líbano, entre 1975 e 1990, que ainda não foram demolidos pelo projeto de reconstrução do país, com uma perspectiva duração de 25 anos (iniciado em 1996), qualquer turista teria certeza que está pisando no primeiro mundo. Esse ar parisiense tem uma explicação: após o fim da I Guerra Mundial, o Líbano ficou sob domínio francês até 1941. Como resultado, quase todo libanês fala francês fluentemente e o dialeto árabe falado na região contém palavras do idioma nas conversas do dia-a-dia, nas fachadas das lojas e campanhas publicitárias -- além do sotaque herdado dos franceses.

Além da beleza natural de Beirute, que é cercada de montanhas de um lado e o Mar Mediterrâneo do outro, o povo é um show à parte. As mulheres e homens são muito bonitos e vaidosos, ao estilo árabe-mediterrâneo. Não é difícil encontrar uma mulher com ataduras no nariz graças à última cirurgia plástica. Segundo um amigo libanês, nem é preciso realizar uma pesquisa para saber que cirurgia plástica aqui é um febre. Basta ir à uma das praias badaladas mais próxima. Aliás, badalação é a palavra de ordem na capital -- mesmo em mês de Ramadã. A vida noturna é intensa, de domingo à domingo, principalmente na região de Gemmayzeh, onde é possível encontrar bares e restaurantes bem decorados e com preços salgadíssimos. Embora bebida alcóolica aqui seja vendida de maneira aberta, uma cerveja local pode custar de 5 a 10 dólares na noitada. Até nos preços a capital do Libano gosta de imitar Paris.

Indo e vindo dentro do Libano
Visitar o Líbano, que possui apenas 10.452 quilômetros quadrados, não é dificil. Embora o país não possua um sistema de transporte muito organizado, basta se informar em que locais pegar vans ou micro-ônibus em Beirute para cidades como Tiro, Sídon e Biblos. Cada passagem custa em torno de 1 a 2 dólares, devido ao estado precário dos veículos. Na volta, basta parar no sentido contrário da estrada e fazer o sinal para o motorista -- por aqui não existem paradas oficiais. Também é possível viajar de táxi, embora os preços sejam mais caros e normalmente taxados em dólares. Aliás, comprar em dólares é muito comum e os comerciantes podem devolver o troco na moeda local ou mesmo em dólares. Dentro de Beirute a dica é perguntar para o taxista se ele trabalha por “service” (ou servis, de acordo com a pronúncia local afrancesada), ou seja, algo em torno de 1,5 dólares, preço fixo por pessoa e por jornada. Mas não estranhe se ele pegar outros passageiros no caminho. Faça um espacinho no banco e aproveite a vista.

Domingo, 7 de Setembro de 2008

Vistos para brasileiros

Por morarmos em um país continental, que comporta quase todo tipo de destino turístico, nós brasileiros em geral não temos muita experiência em viagens ao exterior. A Europa, por exemplo, cuja dimensão do continente é equivalente a metade do Brasil, obriga europeus a transitar entre um país e outro com freqüência. Obviamente, os problemas foram reduzidos com tratados como o Acordo de Schengen. De qualquer maneira, antes de se empolgar em viagens para o exterior comprando passagens e fazendo reservas em albergues ou hotéis, lembre-se de certificar-se sobre a necessidade de visto. Para isso, reunimos alguns links de sites (veja a seção "Vistos / Embaixadas" na barra lateral) que podem auxiliar na busca por informações. Como a legislação sobre vistos altera rapidamente de país para país, uma ligação ou visita à embaixada ou ao consulado mais próximo vai garantir dados confiáveis. Portanto, não confie cegamente na internet!!!

A posse de uma passaporte brasileiro, ao contrário do que pode parecer, garante entrada em muitos países sem a necessidade de visto (apenas o carimbo na imigração) ou visto prévio, que poderá ser obtido mediante a pagamento de taxa na chegada ao país, em aeroportos ou fronteiras terrestres. Vistos podem ser obtidos em qualquer país onde haja um serviço consular do país de destino, dispensando a emissão de todos os vistos para os países que você pretende visitar antecipadamente no Brasil, o que não deixa de ser uma boa idéia. Se possível, tente obter o novo passaporte brasileiro (azul), produzido de acordo com os padrões de segurança internacional e emitido desde dezembro de 2006. Isso pode facilitar a obtenção de vistos, em especial para os países mais desenvolvidos (ou primeiro mundo, chame como quiser). Como medida preventiva, também tenha consigo, além do passaporte, documentos que podem eventualmente ser exigidos na solitação de vistos, entre eles: fotos, certidão de casamento (se for o caso), declaração de imposto de renda, comprovante de residência e documentos adicionais que comprovem uma estreita ligação com o Brasil.

DICA PARA JORNALISTAS: Em países da Ásia e do Oriente Médio onde não há imprensa livre por conta de regimes totalitários, evite preencher o campo "Ocupação" como "Jornalista". Tente substituir por ocupações como "Estudante", "Empresário/a", "Dona de casa" ou, se for o seu caso, dê prioridade a uma segunda profissão, desde que não seja no área de jornalismo. Enfrentamos esse problema na solicitação de nossos vistos para a Índia. Por motivos de comprovação de renda, listei minha atual ocupação como "Empresário", que de fato é meu caso, além de ser jornalista. Mas a Renata identificou-se como "Jornalista", como sempre tem feito. Logo de início, o funcionário demonstrou restrição a esse fato, nos bombardeando com perguntas sobre nossos interesses no país. Rapidamente explicamos que nosso interesse é exclusivamente turístiscos e que atualmente ela não está empregada, o que é verdade. Ainda assim, ela teve que escrever uma declaração de próprio punho afirmando que não produzirá qualquer tipo de reportagem sobre a Índia.

Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Um olhar sobre o Antigo Egito

Templo de Karnak, em Luxor, dedicado ao deus Amun-Ré: uma estrutura que cobre mais de um quilômetro quadrado, resultado de cerca de dois mil anos de construções e acréscimos. Imperdível!

Pirâmides e esfinges não resumem bem o Antigo Egito. O excesso de propaganda pode tornar a experiência um pouco frustrante dependendo do nível de expectativa. Obviamente, uma vez que você coloca os pés no Egito, há lugares que demandam uma visita, nem que seja para dizer que você esteve lá. As pirâmides se enquadram neste caso. Goste ou não, você tem que ir lá! Entretanto, um bom pacote de viagem para o Egito incluirá ao menos as cidades de Lúxor e Assuam, que concentram algumas das mais extraordinárias obras da engenharia egípcia. Ainda nas pirâmides, uma visita ao Solar Boat Museum é obrigatória. Não necessariamente pelo aspecto da grandiosidade dos monumentos do Antigo Egito, mas sim pelo mérito da descoberta arqueológica. O museu (dentro do sítio arqueológico de Giza, onde ficam as três grandes pirâmides/tumbas localizadas no Cairo), comporta um barco descoberto quase intacto na década de 1950. A reconstrução levou mais de quatro décadas e o estado de conservação da madeira (cedro provavelmente importado pelos egípcios da Fenícia, onde atualmente fica o Líbano) dá uma idéia da capacidade tecnológica dos antigos egípcios.

Definitivamente, as pirâmides são um excelente início e uma parada obrigatória na jornada pela descoberta do Antigo Egito. O mistério sobre a construção deste monumento ainda permanece na obscuridade, a despeito dos incontáveis livros sobre o tema. Ainda no Cairo, reserve um dia para uma longa visita ao Museu Egípcio, uma impressionante coletânea dos tesouros. Sarcófagos, tumbas, jóias, móveis, utensílios e uma infinidade de outros objetos, organizados em ordem cronológica, dão uma idéia do passado nos arredores do suntuoso rio Nilo. No entanto, se você não estiver munido de um guia de viagem especialmente voltado ao Antigo Egito ou um tour fornecido por uma agência de viagens, considere a contratação de um guia autorizado antes de entrar no museu. Dezenas deles ficam à porta do museu oferecendo seus serviços, cujo preço é sempre negociável e varia de acordo com o número de pessoas do grupo. Infelizmente, o museu não é bem organizado e a ausência de informação para cada um dos principais objetos da coleção deixa muitas lacunas em aberto. Há disponibilidade de guias falando várias línguas, porém, será difícil encontrar algum falando português. Se o seu inglês, francês ou italiano não estiver em dia, tente o espanhol. Uma vez dentro do museu, não deixe de visitar a sala das múmias. Infelizmente, o ingresso deve ser comprado à parte.

Abu Simbel, complexo arqueológico com dois magníficos templos esculpidos na rocha, é uma imagem para ficar na memória. Próximos da fronteira com o Sudão, os templos foram construídos em XII a.C. pelo faraó Ramsés II.

Uma vez finalizado o tour pelo Cairo, o seguinte destino deve ser o Alto Egito (que contraditóriamente fica ao sul do Nilo). As duas principais cidades nesta região são Lúxor e Aswan. Se possível, comece por Assuam, que fica mais ao sul. Lá será possível visitar o templo de Abu Simbel, uma cansativa viagem de três horas que começa de madrugada, por volta 2h30. Se você estiver viajando por conta própria pelo Egito, fique tranquilo. Praticamente todos os hotéis e albergues oferecem diversos tours por preços razoáveis. Num mesmo dia, é possível visitar Abu Simbel, provavelmente o mais impressionante monumento do Alto Egito, e o templo de Philae, completamente movido para uma ilha a salvo das inundações do Nilo. Após uma visita ao banco leste do Nilo, onde ficam os vilarejos núbios, e tours menores por outras áreas da cidade à sua escolha, há três opções para seguir para Lúxor. A primeira são os trens, que partem diariamente de Assuam a preços módicos. A segunda (e mais cara) é contratar um tour de três dias de navio pelo Nilo, com tudo incluso: alimentação, bebidas e hospedagem numa confortável cabine. A terceira (e mais emocionante e com preços razoáveis) é contratar um tour de dois ou três dias numa feluca (ou barcos à vela), também com tudo incluso (com excessão do conforto). As duas últimas opções são recomendadas para quem tem mais tempo e está interessado em ver mais lugares pelo caminho.

Uma vez em Lúxor, não será necessário mais do que dois dias para ver os principais sítios arqueológicos da região. A cidade, ao contrário de Assuam, é bastante suja e pode ser pouco amistosa, especialmente para mulheres. Lá, evite andar pelas ruas a pé. Casos de agressão ou furto são raríssimos, mas o assédio (nunca físico) é bastante inconveniente. Novamente, hotéis e albergues oferecem toda estrutura para visitar os monumentos da região. Em um dia é possível visitar os templos de Karnak e Lúxor, localizados no centro da cidade. No dia seguinte é possível contratar um tour para visitar o Vale dos Reis e o Vale das Rainhas, assim como alguns monumentos menores. Várias empresas oferecem um tour de balão sobre a cidade, por um preço razoável e com uma estrutura bastante profissional, que inclui confortorto e segurança. Tente barganhar no preço, pois há descontos para grupos. O tour como um todo dura aproximadamente três horas, sendo 50 minutos nos ares. O retorno para o Cairo pode ser feito de trem ou avião, de acordo com seu orçamento ou pacote de viagens.

O Egito para iniciantes
Viajar pelo país, especialmente no interior, pode ser um processo bem desgastante. Além da barreira da língua, cultura e religião podem tornar a sua viagem um desprazer. Por isso, evite o Egito no mês de setembro por conta do Ramadã, o mês sagrado do islamismo. Na realidade, o único problema desta época é a oferta de comida no interior do país, onde a religião tem uma importância muito grande e quase a totalidade das pessoas jejuam durante o dia. No Cairo, achar restaurantes e cafés abertos não será um problema. Se possível, de acordo com sua agenda de viagens, procure evitar também os meses de junho, julho e início de agosto por conta das altas temperaturas. A maioria dos grandes monumentos ficam em lugares desérticos e extremamente secos. Lembre-se que no Egito água (em grandes quantidades) é um item de extrema necessidade.

Cerca de 90% da população do Egito é muçulmana e, por conta disso, no interior a grande maioria das mulheres usa véu. O Cairo, porém, é um caso a parte e embora a utilização do véu seja grande, não chega a ser maciça. A repressão sexual sobre a população de baixa renda gera uma enormidade de distorções sobre a visão dos homens egípcios sobre as mulheres ocidentais. Por conta disso, o assédio sobre as mulheres (mesmo casadas e/ou acompanhadas de namorados e maridos) pode ser bastante inconveniente. Embora seja raríssimo casos de assédio físico, uma boa dica para mulheres é vestir-se modestamente e carregar consigo sempre uma echarpe na bolsa, no intuito de usá-la como véu caso seja necessário. Isso não evitará o assédio por completo, mas tende a amenizá-lo. Também não é recomendado para mulheres dar excessiva atenção para homens em todos os aspectos, seja nas ruas, nas recepções de hotéis e albergues, ou mesmo em lojas de souvenir, pois eles podem tomar isso como uma abertura para investidas mais ousadas de assédio. Portanto, falar apenas o que for estritamente necessário e evitar gentilizas podem poupá-la de situações constrangedoras. Por ser uma sociedade classista, respostas ríspidas podem ser vistas como uma determinação de limites, portanto se for o caso, dispense a sua boa educação e mostre o pior dos seus lados.

Dinheiro também é um assunto importante para quem deseja desembarcar no Egito. O tema é sempre tratado com ambigüidade pelos egípcios e sempre há espaço para barganha. Em tudo, com excessão de lugares em que preços e serviços são tabelados, invariavelmente turistas serão rapidamente identificados e sobretaxados. Uma vez no Egito, sempre que for possível barganhe o preço, tendo em mente que o valor cobrado já está superfaturado em torno 100%. Uma dica é mostrar um certo interesse sobre algo em oferta e após a determinação do preço, desinteresse. Esse tipo de atitude pode reduzir consideravelmente o preço de alguma coisa, dependendo da sua capacidade de dissimulação. A maioria dos táxis, um dos principais meios de transporte para turistas, não contam com taxímetros e são carros antigos, muitas vezes decrépitos. Nesses casos, negocie sempre o preço antes de embarcar. Como a oferta é enorme, determine o preço que você quer pagar e espere até encontrar um taxista disposto a fazer a corrida. Se possível, tenha em mãos o valor exato da corrida para evitar inconvenientes com troco. Alguns taxistas falam inglês, mas se não der para arranjar um, escreva num pedaço de papel o destino e um valor para a corrida. Isso reduz a barreira do idioma.

Viajando por conta própria pelo Egito não é uma tarefa simples, porém uma garantia de problemas e de aventura. Viagens de trem para o interior sem o auxílio de agências pode ser uma tarefa relativamente difícil, mas não impossível. Teoricamente, bilhetes de trem devem ser comprados com sete a quinze dias de antecedência, porém não existe (até o dia da publicação desta matéria) disponibilidade de vendas on-line. O que acontece na prática é que vendedores nos guichês reservam tíquetes para vender no mercado negro. Neste caso, uma das alternativas é embarcar no trem sem bilhete. Comprando dentro do trem há uma multa, que não altera significativamente o valor da passagem, mas que pode gerar o inconveniente de não haver assentos disponíveis. É possível que você tenha de ficar em pé por algumas horas, pois o trem tende a esvaziar conforme as paradas nas estações, onde desembarcam uma considerável quantidade de passageiros.

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Domingo, 31 de Agosto de 2008

O Nilo, os núbios e o Egito

Às margens do rio Nilo, em Aswan, as felucas completam a vista. A travessia para o lado leste do rio, onde ficam os vilarejos núbios, é uma experiência imperdível.

Navengando em barcos a vela em pleno rio Nilo, as famosas felucas, o povo núbio guarda uma das grandes curiosidades da longa história do Egito. Isso porque os núbios foram uma das civilizações mais importantes e poderosas do Antigo Egito. Chegaram até a se tornar faraós. Ainda, segundo historiadores, os núbios poderiam ser considerados o início da civilização negra da África. Quem visitar a cidade de Assuam, na região sul do país, pode conhecer de perto um pouco dessa história que começou a ser contada no lado ocidental do mundo quando as primeiras missões chegaram a África a cerca de 3.800 a.C. Os núbios já eram citados em registros da época como um povo rico, responsável pelo comércio de ouro, incenso, pedras preciosas e até animais exóticos com o Egito.

Mas uma história tão longa possui também várias reviravoltas. Durante alguns reinados faraônicos, os núbios foram considerados um dos quatro grandes inimigos do Egito. O registro é facilmente encontrado em vários templos, especialmente ao sul do rio Nilo, que mostram estátuas de faraós pisando sobre a imagem dos inimigos, dentre eles o núbios. Eles também tomaram o poder por diversas vezes e governaram o Egito e o Império Núbio, que se estendia até o atual norte do Sudão. No ano de 1315, no entanto, os núbios foram forçados a se adaptar aos costumes do Império Mameluco, que colocou no poder um príncipe núbio convertido ao islamismo. Hoje todos núbio são “arabizados” e muçulmanos. Embora a língua própria ainda seja cultivada entre os habitantes das vilas núbias, a língua oficial é o árabe.

Crianças núbias posando para a foto. A simpatia é uma das qualidades desse povo que vive nos vilarejos de Aswan.

No Egito moderno, os núbios são facilmente reconhecidos pela cor negra e pela simpatia. Por essa razão, o aluguel de uma feluca para navegar pelo Nilo pode se transformar em uma das experiências mais interessantes da região. Uma visita a uma vila núbia, no lado oeste do Nilo é uma experiência válida e altamente recomendada.. Tudo é muito limpo, organizado e a comida é saborosa. Os núbios também transmitem com facilidade uma imagem de confiança e honestidade, experiência dificilmente compartilhada em outras áreas do Egito. As crianças são educadas e a convivência constante com estrangeiros acaba facilitando o aprendizado de outras línguas. Uma menina de dez anos chamou a minha atenção quando visitamos Assuam. Ela possuia noções de inglês, italiano e espanhol. Segundo um dos guias, a explicação é simples: os núbios têm o conhecimento e cultura como um dos maiores presentes que os adultos podem oferecer para a nova geração. Embora mantenham tradições primitivas -- como a que proíbe que mulheres casadas saiam de casa, lua-de-mel que dura um mês inteiro e ter um crocodilo como animal de estimação -- os núbios se adaptaram bem à economia egípcia baseada no turismo. Um tour pelas vilas nubias é um passeio simples, sem pompa, em que você poderá experimentar a hospitalidade e o melhor chá preto com menta de todo o Egito.

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Sábado, 23 de Agosto de 2008

Egito: uma breve introdução

Mistérios do Antigo Egito, as pirâmides, templos e esfinges (foto) fascinam não apenas pelo design arrojado, mas também pela grandiosidade do projeto arquitetônico.

Visitar as pirâmides, tumbas, templos e ruínas do Antigo Egito torna-se um grande contraste para qualquer bom observador. É quase inacreditável pensar que no mesmo local onde se desenvolveu um povo tão sofisticado -- verdadeiros mestres em campos diversos como engenharia, medicina, matemática, navegação, artes e religião -- atualmente reside um Egito moderno imerso num profundo mar de contrastes e pobreza. Hoje, além das ruínas, sobrou pouco daquela civilização. A impressão que fica é que só existem duas camadas sociais: a dos muito ricos e a dos muito pobres (quase 80% da população). Enquanto os ricos esbanjam comida e água em suas casas bem equipadas com ar condicionado e luxo, os pobres lutam para sobreviver num país expremido de um lado por uma camada política ditatorial e corrupta (no governo há mais de duas décadas), e do outro lado por líderes islâmicos fundamentalistas.

Esse tipo de realidade fica ainda mais evidente no Cairo, capital do Egito. Os estrangeiros, por exemplo, são facilmente encontrados no mesmo local da classe rica egípcia, que parece pular de ar condicionado em ar condicionado: de casa para o carro, do carro para a cafeteria (preferencialmente de alguma rede norte-americana), e do trabalho para os locais mais badalados e exclusivos da cidade. Enquanto isso, lá fora, o sol bate rachando nos taxistas e suas "latas-velhas" caindo aos pedaços pelo tráfego alucinado da cidade que nunca dorme. Também nos policiais vestindo o uniforme branco do verão, nas mulheres vendendo chá preto com menta e nas crianças que desde cedo aprendem a dizer “hello, welcome to Egypt” para qualquer turista.

No meio de toda essa confusão, entretanto, existe um Egito fascinante. O povo é hospitaleiro e parece entender a importância do turista, praticamente a principal fonte de renda do país, que não conta com muitas jazidas do ouro negro. Hotéis cinco estrelas oferecem do bom e do melhor para turístas abastados convenientemente trazidos ao país por incontáveis agências turísticas -- a melhor forma de conhecer o Egito sem passar por grandes dores de cabeça. Mas a verdade é que você precisa caminhar pelas ruas para dizer que conheceu esse país de fato. Para as mulheres, no entanto, andar pelo Egito, especialmente por lugares ou cidades com grande concentração de pobreza, é um desafio quase sobre-humano. Os homens ficam fascinados pelas estrangeiras, facilmente identificáveis pela ausência de véus cobrindo a cabeça. Até por isso, se você é mulher e pensa em visitar Egito, aguente o calor e vista roupas descentes e compridas, porém leves. Isso não eliminará o assédio, mas ajudará a aplacá-lo.

O Egito que pouca gente conhece
Como um bom cidadão ocidental, criado em um país cristão, você já deve ter ouvido milhares de vezes histórias da Bíblia que retratam o tempo dos faraós. Enquanto restam apenas ruínas e hieróglifos dos antigos egípcios, um personagem das sagas bíblicas permanece mais vivo do que nunca: o Rio Nilo, ainda hoje um dos fundamentos da economia local. É possível nevagar por ele em um pequeno barco à vela (conhecidos aqui como felucas) e conhecer uma curiosidade esquecida pelos turistas: o Nilômetro, uma estrutura construída pelos faraós para medir o nível das águas do rio. Dos vários nilômetros espalhados ao longo do rio pelo países descende os cálculos de metragem cubica utilizadas pelos matemáticos até hoje. Com ajuda dos nilômetros, os faraós podiam prever secas e enchentes e, assim, calcular uma previsão de impostos a serem pagos. Ou seja, motivos para rezar, festejar ou fugir.

Além da herança faraônica, a cidade do Cairo é um destino fascinante a ser descoberto por mulçumanos e cristãos fora dos pacotes comerciais das agências de turismo.

Embora a maioria dos turístas cheguem ao país para ver as maravilhas arquitetônicas inspiradas pela religião dos antigos egípcios, cristianismo e islamismo não devem ser relegados a uma segunda classe do ponto de vista histórico e arquitetônico. Concentrados na capital estão duas das áreas mais importantes de ambas as religiões: o Cairo Islâmico e o Cairo Antigo. A primeira revela a intensa atividade islâmica no país desde o século 7. Conhecida como "a cidade das mil minaretes", a diversidade de mesquitas encontradas no Cairo é a mais ampla de todo o mundo islâmico. É possível admirar mesquitas com estilos arquitetônicos de praticamente todas as correntes do islâmismo, desde os tempos do Profeta Maomé até as modernas contruções de hoje. A segunda revela que o cristianismo também tem raízes profundas no Egito. Uma visita ao Cairo Antigo revelará ao turísta desavisado o lugar onde, segundo a tradição, a Sagrada Família teria se refugiado da investida de Heródes para matar o Messias, que segundo as profecias era uma ameaça ao seu poder. No país, os cristãos (10% da população, sendo 99,9% cópticos), todos concentrados na classe mais abastada, são responsáveis pela preservação de uma importante parcela do cristianismo primitivo. Uma longa visita ao Museu Cóptico revelará tesouros pouco conhecidos pelos cristãos ocidentais.

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Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Istambul: um transe entre Ocidente e Oriente

Uma boa dica para as mulheres é sempre carregar uma echarpe na bolsa para cobrir a cabeça e não perder a oportunidade de ver uma mesquita por dentro.

Chegamos à Istambul com o claro objeto de passar quatro noites e, então, seguir para a China. Rapidamente, essas quatro noites se transformaram em duas semanas por que aterrisar nesta cidade significa entrar num estado de transe, enfeitiçados pelo clima mágico que ela ostenta. Por trás da cortina de preconceito estendida sobre o islã, reside um país moldado pelo multiculturalismo de povos que extenderam seus domínios por essas terras. Capital de três impérios -- Romano, Bizantino e Otomano --, Istambul é testemunha ocular da história da humanidade. Pela Turquia passaram Alexandre, o Grande, livrando a região do domínio persa; Constantino, lançando os fundamentos da então nova capital Constantinopla e do cristianismo como religião oficial do Império Romano; Aquiles em sua mitológica batalha na cidade de Tróia; o Apóstolo Paulo e sua gana evangelística convertendo em cristãos a comunidade de Éfeso... Em adição a este estado de transe contínuo, a Turquia é a única república "democrática" e (ainda) secular do mundo islâmico. Só isso já explica por que uma semana neste país defintivamente é pouco tempo. Viajantes sem compromisso com agendas apertadas (como é o nosso caso) podem dedicar mais tempo, porém nunca será tempo suficiente para quebrar o feitiço sob o qual os turistas acabam presos.

Dividida por dois continentes Istambul é o portal de entrada/saída que divide Europa e Ásia. O turco moderno há muito se rendeu ao clima do que pode ser considerada uma das (se não a) cidades mais cosmopolitas do mundo. A inegável tensão entre a democracia secular e o poder islâmico é visível em atentados à bomba, como o que presenciamos durante a nossa estadia. Nada que abale o dia-a-dia deste mundo à parte nem a vida dos turistas que acabam alheios às zonas de conflito político. A vida em Istambul segue num transe cotidiano que mistura história, arte, cultura, comércio, religião, vida noturna, música, turismo, narguilés e, mais do que tudo, Ocidente e Oriente num clima de encantamento ímpar. No mesmo dia é possível estar em ambos os continentes tanto geográfica quanto culturalmente.

Impossível também é estar em Istambul e não se render à sua culinária extasiante, cheia de temperos e sabores fascinantes, e ao intenso comércio que se extende por uma infinidade de lojas e bazares. Os passados Bizantino e Otomano muito bem conservados e suas contribuições para o mundo religioso explicam em detalhes as tensões entre cristianismo e islamismo. Paulo, o Apóstolo, lançou aqui as sementes do cristianismo primitivo, enquanto Constantino, o Imperador, transformou-o em religião oficial do estado. Os Otomanos, por sua vez, conquistaram essa região convertendo templos cristãos em mesquitas, hoje amplamente espalhadas por toda a cidade, dando a ela um aspecto de beleza única e opulenta.

Em Istambul há muito o que ver (e o que comer). Desde grandes mesquitas como Hagia Sofia, hoje um museu que mistura catolicismo ortodoxo e mesquita otomana; o Grande Bazar, o maior mercado público do mundo, repleto de tapetes, roupas, objetos de decoração, kebabes e toda sorte de produtos chineses "de grife"; o Mercado de Especiarias (ou Bazar Egípcio das Especiarias), com uma infinita variedade de temperos e doces; a beleza estonteante da igreja/mesquita Karyie (hoje um museu), uma das mais espetaculares obras-de-arte da era bizantina; a efervescência da vida noturna no moderno bairro de Taksim... Ufa! Hospedagem e transporte público funcionam muito bem para quem viaja com um orçamento apertado. Quem viaja com mais dinheiro pode aproveitar uma qualidade de produtos e serviços equiparáveis aos países mais abastados da Europa ocidental.

O trânsito e a vida em Istambul, de um modo geral, são caóticos, porém a hospitalidade turca aplaca o choque inicial. Num primeiro momento, as mulheres podem se sentir um pouco intimidadas na maneira ocidental de se vertir e se portar... Nada que algumas compras não possam resolver. Embora seja um país islâmico, a mulher turca é moderna e independente, e há muito tempo abandonaram os véus, intensamente utilizados nas ruas pelas turístas de outros países islâmicos como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos ou Síria. Istambul é também um excelente destino para quem gosta de fazer compras, uma vez que além do turismo, o comércio é um dos pilares econômicos do país. Para quem busca agito, restaurantes e vida noturna abundam pelas áreas mais modernas da cidade como Taksim, com opções para todos os bolsos. Esse aspecto de Istambul é um fantástico estimulante para conhecer gente descolada de várias partes do mundo, em especial do leste europeu e do oriente médio.

Táxis e gorjetas
Embora o transporte público funcione muito bem em Istambul, muitas vezes é vantajoso circular de táxi pela cidade. Primeiro, porque os preços são bastante razoáveis, especialmente quando é possível compartilhar o custo da corrida com amigos. Segundo, porque as distâncias entre os principais pontos turísticos da cidade histórica não são demasiadamente longas. Terceiro, porque pegar um táxi em Istambul é uma experiência cultural, isto é, se você tiver a sorte de pegar um dos motoristas malucos. Tome cuidado apenas com a hora do "rush", quando o tráfego literalmente pára, o que pode elevar consideravelmente o preço da corrida. Apesar de usarem taxímetros, dependendo da distância a ser percorrida (do hotel ou albergue até o aeroporto, por exemplo) é uma boa idéia negociar o preço com o taxista antes de embarcar no carro.

Em bares e restaurantes de Istambul geralmente a gorjeta não está inclusa na conta. A regra básica é bem simples e funciona muito bem: se você gostou do serviço, dê uma gorjeta em torno de 5% (talvez você volte a passar por lá); se você não gostou do serviço, a gorjeta é dispensável (mas lembre-se de não retornar ao estabelecimento); se você planeja virar um freguês do bar ou restaurante, dê sempre uma boa gorjeta (algo em torno de 10% ou mais), o que vai garantir atendimento excelente e personalizado da próxima vez, o que inclui pratos mais recheados, bebidas extras e lugares privilegiados.

Leia também: Refúgio dos fumantes